O ‘Paper’ contra os ‘Anais’: o que há com a novidade nos eventos científicos?

Sobre a exigência do ineditismo das apresentações e as publicações de textos em eventos 

And now something completely different

Embora a produção científica brasileira tenha crescido significativamente nos últimos 20 anos, há algumas coisas no meio acadêmico que parecem estranhas a esse movimento. Talvez remontem a alguma tradição científica brasileira esquecida, da qual ficaram como ‘resto’, ou rastro…ou talvez tenham sido inventadas só para implicar comigo e com você, que precisa publicar – essa é, sem dúvida, uma impressão que fica (provavelmente falsa).

‘Anais de eventos’, por exemplo, me parece ser uma delas. Já não bastasse ter esse controverso nome – quase polêmico, já que eventualmente alguém acaba soltando a palavra no singular, seguida dos risos de todos – a idéia de que tudo que se apresenta em um evento seja publicado é um problema sério. Para quem nunca viveu essa crise, vale o exemplo: imagine que você acaba de começar uma pesquisa interessante, e que um resumo de 350 palavras foi aceito para apresentação em um evento importante. Daí você monta um texto de 10 páginas (double space) para ser lido ou apresentado em 20 minutos – as vezes junto com uma bela apresentação em Powerpoint. Ainda que você explique que aquilo é um trabalho inicial, que pode ser futuramente – e em breve! – contradito pelo próprio andamento da sua pesquisa, ou pelos seus rivais acadêmicos, não tenha dúvidas: se houver ‘anais de eventos’, provavelmente eles vão publicar seu rascunho – e esse texto poderá voltar para te assombrar no futuro, para seu desespero posterior.

Outro problema grave: geralmente os eventos exigem que cada texto enviado para apresentação e publicação nos anais seja inédito. Ora, se ocorrem milhões (milhares, na verdade) de eventos consecutivos – as vezes simultâneos – em um país do tamanho do Brasil; se toda a ênfase qualitativa acadêmica te obriga a publicar em periódicos indexados; então, por que nós deveríamos nos dar ao esforço de publicar textos inéditos em publicações que não tem peso acadêmico relevante?

O problema é tão grande que, na área do Direito, por exemplo, o Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito (CONPEDI) – que realiza a maior reunião anual de pesquisadores da área no Brasil – decidiu que todos os artigos aceitos para apresentação em seus encontros tem status de ‘capítulo de livro’. Outro problema, ainda mais grave é: como seria possível alguém conseguir produzir dois artigos inéditos por ano, para periódicos; e ainda produzir outros artigos inéditos para publicar em ‘anais de eventos’? Me parece que alguma coisa precisa ser sacrificada no altar: ou o ineditismo, ou a qualidade das pesquisas realizadas.

Por ocasião do doutorado no exterior, conheci com gosto a cultura do ‘paper’. Nos eventos acadêmicos no exterior – pelo menos no Reino Unido e, suponho, no mundo Anglo-saxão – aquilo que é apresentado em eventos tem, de fato, status de rascunho. Aqui não se supõe que um evento vai publicar seu trabalho apresentado – provavelmente o resumo apenas -, a não ser que isso seja dito de antemão (exceção a qual denominam publicação em ‘conference procedures’). O ‘paper’, como eles chamam, deve ser lido ou apresentado em 20 minutos, para debates, críticas e aprimoramento. Ele pode ser publicado posteriormente se transformado em um artigo completo e enviado para um periódico. E, melhor de tudo: o paper não precisa ser inédito. Há pessoas que apresentam o exato andamento das suas pesquisas, em três eventos no mesmo ano. Assim, têm a oportunidade de coletar diferentes opiniões sobre o que tem pesquisado, sem o esforço daquilo que chamo de ‘reciclagem compulsória’.

Geralmente, no Brasil, os pesquisadores acabam forçados a um processo de ‘reciclagem acadêmica compulsória’: ou seja, são obrigados a mudar a ordem de pedaços de textos – a introdução de um vira conclusão de outro -, inventar novos títulos criativos, enfim, mudar aquilo que na verdade poderia continuar igual, simplesmente para participar de um evento – seja um grande congresso ou uma pequena conferência especializada. Sou da opinião que isso é uma grande perda de tempo, um esforço desnecessário. Afinal, como a gente pode esperar que se produzam pesquisas relevantes totalmente ‘inéditas’ em menos de um ano? E se as pesquisas não serão inéditas, porque obrigar um pesquisador a fazer um texto totalmente inédito para um outro evento – se, o que queremos, é que apresente aquela mesma pesquisa relevante, em seu atual desenvolvimento?

Não quero que pareça que estou defendendo aqui a situação em que um sujeito possa apresentar a mesma coisa durante, digamos, três anos consecutivos…mas a experiência no mundo dos ‘papers’, onde é possível re-apresentar seu trabalho para públicos diferentes que ainda não o conhecem, me parece muito mais proveitosa. Será que esperamos realmente, no meio acadêmico brasileiro, que um pesquisador vá a três ou quatro eventos no mesmo ano, e apresente algo totalmente diferente daquilo que pesquisa? Totalmente novo?

Talvez pelo contexto do Reino Unido, essa insistência brasileira no texto inédito me fez lembrar uma vinheta de um programa do Monty Python – onde nada parece ter sentido – que chama o próximo quadro que, como os anteriores, não tem nenhuma conexão com o resto: ‘And now, for something completely different’ (E agora, veremos algo completamente diferente). Que esse não seja o nosso caso: espero que possamos superar a ânsia pelo inédito em prol da qualidade e do bom andamento das pesquisas no Brasil.

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