O Cajado e a Câmara

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Sobre a indicação do Pr. Marcos Feliciano (PSC/SP) para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados

“Quem não quer ver malucos, deve quebrar os espelhos.” (Voltaire)

A indicação do Pr. Marcos Feliciano para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados não foi só uma surpresa. Foi um golpe que senti pela manhã de quinta-feira 28/2/13, quando a notícia chegou a mim pela primeira vez. Foi como tomar uma pancada na cabeça: depois que passa o primeiro momento de tontura, sente-se a dor e tenta-se recuperar para ficar em pé. Mas a única coisa possível a fazer é reagir – antes que a segunda cajadada te acerte.

E acertou-me de jeito. Por duas razões simples. Como jurista e ativista, acredito que Direitos Humanos são, talvez, a única bandeira e argumento possível para se resistir, hoje, às arbitrariedades que acontecem no Estado. Quando o Estado de Direito (liberal) falha – o que ocorre com frequência –, por exemplo, nos inúmeros casos de tortura, remoções forçadas de comunidades, corrupção policial, etc; a única coisa que resta é levantar essa bandeira. Em segundo lugar porque, como cristão, me coloco ao lado de protestantes e evangélicos que se recusam a aceitar que uma guerra entre minorias no Brasil – o Movimento Gay e as Igrejas Evangélicas – seja o principal motor da política contemporânea, onde uma minoria parece tentar destruir a outra. Mas nunca é fácil tentar conciliar quem não sabe – ou não quer – ouvir o outro. Facilmente vira-se alvo dos dois grupos.

Quando fui membro do Conjuve – Conselho Nacional de Juventude, representando a Rede FALE, essa era a tensão mais esperada. As pessoas achavam que ali dentro reproduziríamos os violentos conflitos políticos entre ativistas cristãos e LGBTT – que, dizem, já determinaram até o resultado de eleição para Presidente da República. Mas enganaram-se. Ali, naquele Conselho, nós construímos um espaço de diálogo no sentido mais poderoso: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito que tem de dizê-las”. Mas o contato foi além disso.

Em 2009, eu descobri, perturbado, que a atuação política do grupos ‘Evangélicos’ se parecia muito com a atuação política dos grupos LGBTT – inclusive, votando juntos contra o governo em alguns momentos. E por quê? Parece-me que são dois grupos que atuam politicamente por acreditarem que ‘são’ – e não por terem um ou outro interesse político específico. Os militantes LGBTT, porque são desta forma, procuram engajar-se politicamente, conquistar mais espaço e garantir o que entendem ser os seus direitos. Os cristãos, por professarem uma fé que os transforma em novo ‘ser’, entendem que precisam ser ‘sal e luz’ na terra e procuram, também, marcar espaços e defender seus interesses. Mas há sérios problemas nesta compreensão de ‘ser’ para ‘estar’ na política. Um deles é que o sentimento de incompreensão quanto a sua posição pode gerar violência.

Não posso comentar com detalhes os problemas desta concepção de atuação política dentro do Movimento LGBTT – porque não conheço o assunto a fundo. Mas posso comentar sobre o mesmo problema dentro do universo cristão. No Brasil, depois que um cristão compreende que precisa atuar politicamente, há dois perigos diante dele. O primeiro é aquele mais comum: achar que simplesmente por ‘ser crente’, um sujeito está abençoado para a política. Essa é a concepção que leva milhões de brasileiros a votar no ‘pastor’ ou no ‘irmão’ abençoado pelo primeiro. É o que o pessoal do FALE recentemente chamou de ‘Voto de Cajado’. As consequências disso nós conhecemos, são basicamente duas: muitos parlamentares são eleitos sem compromisso democrático, partidário, programático ou ideológico, e se tornam ‘despachantes de igrejas’ – gente que vota sempre para a expansão do poder de suas igrejas, associações, rádios e empresas. Por fim, essa turma acaba acreditando que a única – e mais rápida – solução para o Brasil é eleger um presidente ‘crente’, e declarar de boca que ‘o Brasil é do Senhor Jesus Cristo’.

O segundo problema tem maior profundidade. É quando os cristãos acham que podem transformar a declaração fundamental de ‘eu creio’ da sua fé, em lei, para ser imposta pelo Estado. Isso ocorre quando queremos reduzir a Revelação de Deus a uma mera proposição de solução para nossos problemas cotidianos. O erro fundamental dessa posição é acreditar que existe uma única ‘política cristã’, ou uma ‘economia cristã’, ou seja, que sistemas políticos e econômicos podem expressar ‘fé’. Eles podem ser interessantes, justos, úteis e efetivos, mas não podem expressar fé no sentido da Revelação! Quem melhor resume os problemas dessa posição é o teólogo Jacques Ellul: ‘se os cristãos querem proclamar o amor de Deus em Jesus Cristo pelo testemunho – ou mesmo pelo martírio –  eles não tem o direito de impor, ainda que por constrangimento, um certo tipo de moral ou de estilo de vida sobre aqueles que não são cristãos’.

Seria a nomeação do Pr. Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara o resultado da primeira posição ou da segunda? Embora eu não me sinta na obrigação de explicar esse fenômeno, eu diria que a primeira resposta é ‘nem, nem’: nem da primeira, nem da segunda. O Pr. Marco Feliciano chegar a essa posição é, provavelmente, resultado aleatório da jogatina partidária brasileira, onde nossos governos tem que rifar cargos importantes, muitas vezes ao acaso, para compor maiorias no Congresso – nisso a que chamamos ‘presidencialismo de coalisão’.

Contudo, é inegável que a presença de indivíduos no estilo ‘Marco Feliciano’ na política é também o resultado de uma história política pouco democrática em nosso país. Do voto de cabresto agrário dos coronéis, chegamos ao voto de cajado televisivo de evangelistas da prosperidade. Se a sua nomeação é uma ofensa para o movimento LGBTT, é também um tiro de morte nos evangélicos e protestantes – que serão inevitavelmente associados a sua atuação política caricata na presidência daquela Comissão.

A única posição possível diante desta tragédia é reagir. Pedir a Deus que tenha misericórdia de nós; e somar todas as forças para impedir que este Deputado tome posse da Comissão.

+ Leia aqui sobre a campanha FALE por Direitos Humanos na Câmara

+ Assine já: Petição contra a nomeação do Dep. Marco Feliciano para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados

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6 respostas para O Cajado e a Câmara

  1. Enir sanches frozi disse:

    Orando ao bom Deus pedindo para o Espirito Santo orientar da melhor forma possivel as pessoas competente para atuar com pressisao nestas arias tao importantes .

  2. Egnaldo disse:

    Muito bom, Marcus Vinicius. Não sei se é o espaço mais adequado para discutirmos isso, mas há possibilidade de diálogo quanto ao reconhecimento de diretos a homossexuais entre a militância LGBTT e os evangélicos de alguma designação? Concordo que essa guerra entre minorias pode não levar a nada proveitoso, mas até que ponto os evangélicos seriam atingidos pelo reconhecimento estatal de direitos aos homossexuais? Quando falamos de casamento homossexual, por exemplo, por mais que contrarie o pensamento cristão tradicional, em que de fato prejudicaria a minoria evangélica? Não seria isso também intolerância? Que o líder religioso declare ser pecado o que bem entender por sua interpretação bíblica que seja; não sou absolutamente contra a liberdade de expressão e de religião (não incitando ódio, claro).

    • mvmatos disse:

      Prezado Egnaldo, em primeiro lugar, obrigado pelo seu comentário! Eu creio que há, sim, essa possibilidade de diálogo – como mencionei no texto, tive a grata experiência de fazer esse diálogo no Conjuve. Não creio que os evangélicos seriam atingidos, de forma alguma, pelo reconhecimento da união civil entre casais homoafetivos (seja com o nome de casamento ou outro). Contudo, reconheço que o movimento LGBTT pode assustar as igrejas evangélicas quando propõe a ‘criminalização’ da homofobia – se a lei permitir alguma margem de interpretação de que a criminalização da homofobia se estende para dentro dos templos religiosos, temos aí um grave conflito de princípios constitucionais, que não será fácil de equalizar. Penso que seria importante, tanto de um lado quanto do outro desta disputa (ingrata) entre minorias, que se reconhecesse quem são os grupos mais propícios ao diálogo – para que daí ele pudesse ser efetivado. Com isso, poderíamos finalmente sair dos posicionamentos políticos extremados em relação ao tema.

      • Egnaldo disse:

        Concordo. Acho mesmo que o assunto quanto à criminalização deve ser melhor debatido. Há sim homofobia e deve ser combatida, mas é claro sem impor aos templos um discurso de aceitação dos homossexuais. Obrigado.

  3. Wilson disse:

    Parabéns pelo texto Marcus! Lembrei-me da infame piadinha da vaca em cima do poste: não sabemos quem a colocou lá, o que ela está fazendo lá nem como foi parar lá…No caso do Feliciano conhecemos bem o processo que o colocou lá (como vc muito bem o descreveu). Mas para qualquer cristão sério não resta nenhuma dúvida de que, a semelhança da vaca, ele deveria descer de lá. Penso que cristãos como esse sujeito nunca entenderam o que Paulo quis dizer com “as armas da nossa milícia não são carnais” nem o que Jesus nos ensinou como o ser sal e luz. A dinâmica deles é a da espada e a da força, aquela do olho por olho e dente por dente, esqueceram-se do “eu porém vos digo”… Esses aguerridos “defensores” da cristandade na esfera política, os novos “jesuítas” do terceiro milênio, em sua obstinação e vaidosa sede de poder nem percebem que destroem aquilo que pensam estar defendendo – a credibilidade do cristianismo.

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