Justiça seletiva

Por Vinoth Ramachandra*

Devemos saudar a recente condenação de Charles Taylor pelo Tribunal Especial das Nações Unidas. Como presidente da Libéria, Taylor fomentou insurreições em países vizinhos com a ajuda de milícias brutais a fim de estender sua influência regional. Foi sob seu governo que a expressão “diamantes de sangue” foi cunhada, referindo-se às pedras lucrativas de Serra Leoa para financiar suas aquisições de armamentos. Muitos deles supostamente chegaram às prateleiras de grifes como Cartier e Bulgari. Nenhum dos proeminentes varejistas de diamantes que adquiriram “diamantes de sangue” sem perguntar suas origens tem sido moral ou legalmente responsabilizados. Nem os governos e companhias de quem Taylor comprou suas armas.

É digno de nota que o Tribunal das Nações Unidas foi fundado principalmente pelos Estados Unidos e Reino Unido. Como eu tenho frequentemente chamado atenção, está ausente do discurso público nos Estados Unidos e Europa ocidental qualquer sugestão de que poderes ocidentais sejam sujeitos aos mesmos procedimentos de prestação de contas utilizados para responsabilizar criminalmente aqueles que são percebidos como obstruidores dos interesses políticos e econômicos.

Um editorial presunçoso no britânico Financial Times sobre a condenação de Taylor começa assim:

“Uma forte mensagem foi enviada aos tiranos e senhores da guerra de todo o mundo ontem. A lei internacional pode ser lenta, mas mesmo aqueles nos mais altos estratos do poder podem ser responsabilizados pelas atrocidades comentidas contra inocentes”.

Não há qualquer menção do tratamento de Bradley Manning pelo governo americano por expor os crimes de guerra dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão; ou qualquer apelo à investigação do comportamento das tropas francesas na Costa do Marfim. O que o editorial deveria ter dito é:

“Aqueles tiranos em nações não-ocidentais cujas operações interferem nas prioridades geopolíticas americanas e nos interesses corporativos ocidentais serão responsabilizados. Se eles forem aliados do Ocidente, como a Malásia, Arábia Saudita ou Israel, suas atrocidades não contam. Na verdade, nós continuaremos a vender para eles suprimentos militares. E se eles forem cidadãos americanos, desfrutarão de imunidade em investigações de crimes de guerra“.

Recentemente minha esposa encontrou uma entrevista de Nicholas Wolterstorff, destacado filósofo cristão, com o Rev. Eliya Khoury, árabe palestino, nascido e criado na Cisjordânia e bispo assistente na Diocese Anglicana de Jerusalém. Alguns anos atrás as autoridades israelenses prenderam o Rev. Khoury por oito meses (dois deles em confinamento) e depois, sem dar oportunidade de defesa, expulsaram-no de Israel. Ele tinha sido bastante aberto em condenar as injustiças cometidas contra seu povo.

Wolterstorff teve uma conversa privada com Khoury em Amã, Jordânia, e ele transmite o essencial do que Khoury disse (embora admita que é incapaz de expressar a profunda dor e paixão de sua fala):

Por que — ele perguntou — a igreja abandonou os cristãos do Oriente Médio? Fomos abandonados, esquecidos pela igreja do mundo inteiro. Por que os cristãos nos Estados Unidos apoiam os sionistas em vez de nos apoiar, seus irmãos e irmãs em Cristo? Eu não entendo. Eles nem mesmo nos veem… Estamos entre os israelenses e os muçulmanos. Os muçulmanos veem a cristandade ocidental como apoiadora de Israel. Veem Israel como um posto avançado do Ocidente — do Ocidente cristão. Não querem ser parte disto…. Estamos prontos a nos tornarmos mártires se isso for requerido de nós. Permaneceremos fiéis. Mas vocês estão nos forçando a nos tornarmos mártires indignos, mártires de uma causa indigna.

Poucos anos atrás 12% dos palestinos eram cristãos. Agora são apenas 6%. Estamos encolhendo de modo constante, diminuindo de modo constante. Eles estão sendo forçados a sair de Israel por causa de políticas sionistas. Israel está destruindo a igreja na Palestina. Os mais velhos têm suas casas tomadas pelos israelenses, confiscadas. Os mais jovens, não veem futuro, emigram — para os Estados Unidos, para a América do Sul, para qualquer lugar. Por que os cristãos americanos apoiam os sionistas, quando os sionistas estão destruindo a igreja na Palestina? Por que eles não apoiam seus irmãos e irmãs em Cristo?

E agora fiquei sabendo que grupos cristãos conservadores nos Estados Unidos estão planejando iniciar uma estação de rádio mirando os muçulmanos. Por que vocês não conversam conosco primeiro sobre estas questões? Por que vocês agem como se não houvesse cristãos aqui? Temos convivido com os muçulmanos por milhares de anos. Por que não pedir primeiro nosso conselho? Vocês dizem que não temos sido bem-sucedidos em evangelizar os muçulmanos. Quais os frutos que seus missionários ocidentais têm para mostrar? Estou avisando, isto fará apenas com que os muçulmanos fiquem mais nervosos, mais suspeitosos, mais fanáticos. A opressão que sofremos vai piorar. Vocês serão responsáveis pelo desaparecimento do cristianismo do Oriente Médio a menos que parem este “evangelismo americano” — e a menos que seu governo resolva o problema palestino. (In: An evening in Amman, The Reformed Journal, Julho de 1982.).

Este foi um clamor em 1982. O que mudou? Na verdade, a situação descrita, tanto na Palestina quanto nos Estados Unidos, apenas piorou.

Quando perguntaram uma vez para Gandhi o que ele pensava da civilização ocidental, ele supostamente respondeu: “Seria uma boa ideia”.

Como persuadimos nossos amigos na América do Norte e Europa que acreditar nos direitos humanos seria uma boa ideia?

Fonte: Novos Dialogos

* Publicado anteriormente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2012/05/12/selective-justice/

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