O cajado, o cabresto e o silêncio

Uma resposta ao “Voto de silêncio” de Allen Porto

Recentemente uma campanha de internet de um grupo local da Rede FALE de Defesa de Diretos – o FALE RJ – tomou repercussão nacional. Trata-se da campanha “FALE contra o voto de cajado”, criticando o envolvimento pouco crítico de lideranças evangélicas do Estado do Rio de Janeiro na política municipal. A campanha propõe denunciar, a partir de um movimento cristão, as alianças inescrupulosas e o mau uso do púlpito para apoio a candidatos, “barganhas” em licitações, e outros tipos de acordos políticos e econômicos espúrios.

A repercussão nas mídias sociais e sites de internet foi ampla e interessante – veja por exemplo o portal Notícias Gospel. No Facebook, em particular, há desde o apoio entusiasmado até críticas em tom semi-bíblico, alegando que a campanha desmoralizaria os evangélicos brasileiros diante de outras religiões. Neste post, no entanto, vou comentar apenas um texto de recepção da campanha, escrito pelo blogueiro Allen Porto em seu blog A Bíblia, o Jornal e a Caneta. Esta crítica chama atenção porque tem o mérito de tentar ir além do senso comum nesta discussão sobre a relação entre os púlpitos e os palanques.

A essência do texto de Allen, pode ser resumida da seguinte forma: a campanha da Rede FALE pode levar os cristãos erroneamente ao silêncio, uma vez que deslegitima e desautoriza pastores e lideranças eclesiásticas a expor sua opinião política de púlpito – ou em outros eventos que poderiam ser promovidos na igreja com este fim. Segundo o autor, seja por “ingenuidade quanto à ‘neutralidade’ da esfera política”; seja por uma tendência de “anti-envolvimento político”; ou por insubordinação de sua vida ao Senhor; ou ainda por uma “concepção bastante individualista do processo de decisão política”, a campanha seria de qualidade questionável.

A lógica de seus argumentos, que leva ao trocadilho principal de seu texto – de que uma campanha do “FALE” pode levar a Igreja ao “silêncio” -, fica melhor expressa no exemplo que utiliza, comparando o papel do púlpito no processo político ao uso de “facas”. Para ele “não é porque facas são usadas para assassinar pessoas que o mundo sai protestando contra o uso delas, correto? Pelo contrário, se alguém tivesse coragem para tanto, muitas outras vozes se levantariam para demonstrar os benefícios desse instrumento“.

A posição que Porto expõe contra a campanha está equivocada por três razões. Uma de lógica; outra de desconhecimento do contexto político evangélico brasileiro (e fluminense); e por fim, com um pouco de má fé do autor, pelo desconhecimento voluntário de seus interlocutores – das razões, ações e história da Rede FALE.

A primeira, porque a lógica que utiliza para equiparar a política a um instrumento – a faca -, é falaciosa. Ora, mesmo uma faca – que é comumente um instrumento de cozinha -, pode ter determinadas restrições de seu uso. É o caso, por exemplo, de eventos públicos, shows, transporte aéreo e tantas outras situações que restringem seu uso. Afinal, embora uma inocente faca possa servir para cortar cebolas, o porte dela em eventos públicos – um show de rock n’ roll, um jogo de futebol – deve ser restrito. E não há nada de inovador ou politicamente correto nisso: mesmo um bárbaro viking da idade média já sabia que em certos ambientes cerveja (ale!) e facas não se misturam bem. De onde se conclui que – como o autor contraditoriamente aponta – nem toda mistura de política e pregação ou atividade eclesiástica é boa, obviamente.

Em segundo lugar, embora procure fazer uma análise aprofundada do tema, Porto peca pela superficialidade com que olha o contexto político brasileiro e sua história. Da leitura de seu texto – e de seu blog – tem-se a impressão de que a conversão de um brasileiro ao cristianismo evangélico deveria torná-lo, talvez, menos brasileiro – ou pelo menos um ser fora de sua historicidade. Explico: o contexto evangélico atual é marcado pela presença maciça de mega-corporações eclesiásticas, que aliam suas opções teológicas de prosperidade financeira à venda de produtos e promoção de candidatos à cargos eletivos – valendo-se, na maioria dos casos, de concessões de redes de transmissão e comunicação. Mas o autor parece ignorar esse fato – ou não entender a direção da crítica da campanha.

É neste contexto de um neopentecostalismo exacerbado que se formam e se elegem as famosas “bancadas” ou frentes parlamentares evangélicas. São acordos de backstage aliados a promoção de púlpito que permitem que grandes massas de fiéis votem nos indicados de seus pastores. Não que eu queria aqui, subestimar a massa encefálica destes fiéis – longe de mim! O que estou dizendo apenas é que boa parte dessas pessoas é, provavelmente, oriunda de um ensino público sucateado – por sucessivos governos que privilegiam empresas privadas de ensino – e, portanto, sujeitos a votar sem ter os devidos instrumentos, mesmo de leitura, para uma reflexão aprofundada dessa questão. Ou seja, trata-se de um contexto minimamente semelhante ao do “coronelismo” e do “voto de cabresto” do início de nossa república.

Mas o que realmente me preocupa no texto, é a ingenuidade – ou má fé – em  apontar para a campanha como se essa caminhasse para levar os evangélicos brasileiros ao silêncio. Ao contrário, é de se esperar que uma campanha pública leve a mobilização e discussão – no que o próprio texto de Porto já é um resultado.

Na realidade, a história do envolvimento político dos evangélicos – sobre a qual o autor possivelmente saiba pouco – é tão sombria no país que, essa sim, está até hoje envolta no silêncio. Se parte significativa das igrejas evangélicas históricas opta pelo “não envolvimento” na política, isso deve se dar, em parte, ainda pelo trauma resultante de sua atuação durante a Ditadura Militar, entre 1964 e 1985. Durante este período, houve pastores que entregaram suas próprias ovelhas à tortura, em nome da defesa nacional, ou do combate ao comunismo – como revela recente pesquisa realizada pelo ISER (e pela Rede FALE), bem como matéria da revista Isto É sobre o tema. Esta é uma ferida ainda não curada em boa parte das igrejas evangélicas brasileiras e que, por muito tempo, levou pastores e líderes a proibir a política como tema, arena ou esfera de atuação e debate em suas igrejas.

Finalmente, o autor parece desconhecer completamente o que é a Rede FALE – talvez uma simples pesquisa de internet resolveria o caso. FALE é talvez a iniciativa mais profícua de debate e atuação política de jovens evangélicos no Brasil. Criado em parceria pela ABUB – Aliança Bíblica Universitária do Brasil e o CLAI – Conselho Latino Americano de igrejas, a rede se tornou uma referência, mesmo um modelo – dos poucos positivos – de participação política entre os evangélicos. Nos últimos 10 anos, a Rede promoveu pelo menos três debates nacionais intitulados “Juventude Evangélica e Participação sócio-política”; e mais de 15 campanhas de oração e engajamento político em questões específicas – em temas amplos como combate ao abuso sexual de crianças, defesa do meio ambiente, e comércio justo – com a mobilização de aproximadamente 3.000 evangélicos em cada uma. Costuma-se dizer que a maior inovação da Rede FALE é propor levar à sério a admoestação bíblica de orar pelas autoridades (2 Tm. 2: 1-2). Evidentemente um trabalho missionário que não pode ser acusado de ser promotor de “silêncio”.

Logo, só posso concluir que se o autor opta por ignorar tantos dados sobre a existência da Rede FALE – e consequentemente interpreta errado o propósito da referida campanha -, talvez tenha alguma outra questão de pano de fundo em seu texto. Pode ser pelo fato de que tem por modelo político a ideia de representação, ligada a hierarquia – em oposição a uma política democrática e participativa, característica das redes e dos movimentos contemporâneos – e tenha medo de outras possibilidades, mesmo que em bases de fé bíblicas.

De qualquer forma, a denúncia do cajado como cabresto jamais pode ser acusada de promover o silêncio político. Ao contrário, ela permite o empoderamento e o exercício do sacerdócio universal também nesta esfera. Do silêncio diante do erro se fartam apenas os aproveitadores, os manipuladores, os difamadores e aqueles que lucram com isso.

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9 respostas para O cajado, o cabresto e o silêncio

  1. allenporto disse:

    Se você já me desqualificou, e pontificou que tenho má fé, não tenho o que responder, né? Qualquer resposta é a expressão de alguém com má fé tentando esconder sua estratégia.

    Sinto muito por sua avaliação.

    • mvmatos disse:

      Olá Allen, eu disse “talvez” por má fé. Pode ter sido só desinformação, mesmo – te dei o benefício da dúvida, dado que tantas vezes fiz contato contigo e nunca obtive sequer uma resposta tua, em outras questões semelhantes. A desinformação pode ter sido voluntária 8-). Mas desculpe se te ofendi, não foi intenção nenhuma desqualificar o autor – longe de mim. Sempre curti o seu blog e várias vezes comentei e até escrevi e-mails pra vc.

      • allenporto disse:

        O seu texto diz:

        “A posição que Porto expõe contra a campanha está equivocada por três razões. Uma de lógica; outra de desconhecimento do contexto político evangélico brasileiro (e fluminense); e por fim, COM UM POUCO DE MÁ FÉ DO AUTOR (grifo meu), pelo desconhecimento voluntário de seus interlocutores – das razões, ações e história da Rede FALE.”

        Você usa “talvez” em outro parágrafo, mas não sem antes já ter declarado a má fé.

        Mais à frente:

        “Logo, só posso concluir que se o autor OPTA (grifo meu) por ignorar tantos dados sobre a existência da Rede FALE – e consequentemente interpreta errado o propósito da referida campanha -, talvez tenha alguma outra questão de pano de fundo em seu texto.”

        Sua avaliação é apressada e imprecisa, além de usar da estratégia de desqualificação, intencionalmente ou não.

        Fique tranquilo que em termos de ofensa pessoal estamos bem. Apenas discordo completamente do seu modo de avaliar a realidade – modo que é aprendido pelos leitores e pessoas influenciadas pelo ministério da rede fale.

        Talvez eu também tenha escrito mal o meu texto e isso possibilite a má interpretação. De todo modo, seu texto representa uma compreensão errada do que escrevi, e o seu estilo me desestimula bastante a produzir qualquer resposta mais elaborada.

        Mas, se Deus quiser, ainda publico alguma coisa tratando do assunto.
        Abraço

  2. caiobvasconcelos disse:

    Cara… Honestamente, não vejo equivoco de lógica, desconhecimentondo contexto político evangélico brasileiro tão pouco má fé no texto de Allen Porto. Entretanto, no parágrafo que tenta enumerar possíveis equívocos de Porto, o autor desse texto afirma categoricamente: “com um pouco de má fé”, não dando o suposto beneficio da duvida.

    • mvmatos disse:

      Você tem razão Caio. Já me desculpei com o Allen – no comentário abaixo -, por conta disso. Mas mesmo da maneira como escrevi, a má fé não é atribuída como se fosse inerente a pessoa – o meu texto não sugere isso. Pode ser má fé apenas com minha posição, minha cosmovisão cristã, ou meu ministério na Rede FALE. Fiz uma relação entre a má fé com a Rede, e a desinformação sobre a campanha em debate. Só isso.

  3. Aqueles que se permitem lançar palavras públicas na blogosfera – ou em outro meio de comunicação público – sempre convivem com a tentação de serem ácidos nas palavras e críticos como forma (consciente/inconsciente) de se destacar em qualquer contexto contensioso – e falo, para mim mesmo, que num blog mais humilde e popular se lança numa proposta mais simplória e propedêutica que as questões tratadas pelo Marcus e pelo Allen Porto. Porém, vendo o texto aqui apresentado, percebo essa tentação problemática de aviltar desnecessáriamente o pensamento e a pessoa do outro por mera discordância. É patente certa pressa do Marcus Vinicius em destratar – ainda que de ‘boa fé’ – asseverando palavras que somente demonstram uma antítese semanticamente irresponsável. Por me permitir ler, sempre que posso, algumas postagens no “A Bíblia, o Jornal, e a Caneta” sei bem falar do caráter de boa fé cristã e da preocupação bíblica das palavras ali lançadas para quem se permite refletir. Por fim, tentando ser mais empático, pode ser que, de ‘boa fé’, o Marcus Vinícius tenha tido um deslize semântico ao desconsiderar o conotação imoral que há na má fé… Com fé em Cristo, abraços!

    • mvmatos disse:

      Olá Magdiel, obrigado pelo seu comentário. Confesso que prefiro quando os comentários tem relação com o conteúdo, e não com a forma ou a intenção dos autores. Há anos atrás tentei conversar e travar um diálogo sobre fé, política, vida acadêmica e coisas assim com o Allen, mas nunca obtive sequer uma resposta dele a um e-mail – que enviei reiteradas vezes. Talvez essa má impressão que tive – da falta de disposição dele em debater com quem, do mesmo ponto de partida (em termos de fé), chega a conclusões bastante diferentes em propostas políticas -, seja o que tenha me deixado meio “ácido” na resposta ao texto dele – ou não, talvez seja só uma questão de estilo, minha área é o direto e nela a gente respira “contencioso” o tempo todo. Mas, se o diálogo – ou debate – quando finalmente ocorreu, saiu meio áspero, paciência: creio que o blog dele é interessante, e Deus tem um propósito em tudo, mesmo quando não compreendemos ou discordamos.

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